Realidade

o filho - dardenne brothers

Quando criança uma característica me era muito presente nas coisas que eu fazia, eu gostava de imaginar histórias, as fantásticas me fascinavam e levavam minha mente para lugares incríveis. Mais velho, tive a oportunidade de ler “As Crônicas de Nárnia” do grande C. S. Lewis (1898-1963), me identifiquei com os irmãos Pevensie que exploravam o mundo de Nárnia com grande curiosidade, travando batalhas e conquistando o reino, no entanto, sempre que eles voltavam para seu mundo de origem a realidade de uma Inglaterra em guerra era se voltava contra eles.

Assim como os irmãos Pevensie, eu também tinha que constantemente sair do meu mundo de fantasia para retornar à realidade, mas o que nos leva a essa coisa a que chamamos realidade? O que na nossa existência chamamos de fantástico, real, ideal e o que mais for?

Na faculdade, por alguns períodos fomos confrontados com o debates entre formalismo e realismo, especialmente voltamos para dois teóricos do cinema, sendo por parte do formalismo o russo Sergei Eisenstein (1898-1948) e pelo realismo o francês André Bazin (1918-1958). Não vou discorrer aqui sobre as afirmações de ambos, mas tenho que tratar disso, pois nesse período eu fui apresentado a uma arte cinematográfica riquíssima por parte de ambas as linhas de pensamento, mas foi o cinema que de alguma forma demonstrava uma realidade ordinária, cotidiana, quase marginal que me chamou mais a atenção, cito aqui alguns filmes para os curiosos: Umberto D (1952), Rio Zona Norte (1957), Rosetta (1999), Edifício Master (2002).

O trato formal com as questões do real afetaram diretamente a minha forma de enxergar o mundo e consequentemente o meu cristianismo. Eu que desde menino tinha um fascínio pelo fantástico, acabei lidando com a minha espiritualidade de uma maneira um tanto fantástica, quase fantasiosa e uma postura dualista de separação de sagrado e profano havia tomado a minha vida. O meu conceito de sagrado e profano era baseado naquilo que era religioso e secular respectivamente, no entanto essa forma de lidar com as coisas me fazia um tanto recluso das coisas que aconteciam ao meu redor e me gerou alguns problemas (não terminei o meu curso superior até hoje muito por conta dessa forma dualista de lidar com as coisas).

Algo que percebi é que a minha espiritualidade não tinha implicações diretas com as necessidade que a minha realidade de vida traziam, assim entrei em conflito, a minha vida cristã em contraposição à minha vida “real”, afinal de contas não é real a ação de real a ação de Cristo na história? Porque esse conflito era presente em minha vida então? Voltemos a Lewis para encontrar uma solução para isso:

Eu acredito no cristianismo como acredito que o sol surgiu, não apenas porque o vejo, mas porque por meio dele vejo todas as coisas. (LEWIS, C. S. Teologia é poesia? – 1945)

Diferente do que eu pensei um dia a realidade não é algo conflitante com a pessoa de Cristo, muito pelo contrário é ele a luz que da sentido à toda realidade. Esse período da minha vida não foi o que me tornei cristão, mas definitivamente o que dei passos mais concretos em direção à maturidade espiritual. Compreendi que o sagrado pode se revelar em todo lugar e o profano pode estar em lugares que eu jamais imaginaria.

E foi-lhe dirigida uma voz: Levanta-te, Pedro, mata e come.
Mas Pedro disse: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma comum e imunda.
E segunda vez lhe disse a voz: Não faças tu comum ao que Deus purificou.
Atos dos Apóstolos 10:13-15

Amados como cristãos nós temos a obrigação de nos encantar com o fantástico, mas não se esqueçam das implicações que a nossa fé tem na nossa realidade cotidiana. Faça um trato com a realidade, lembre-se que Cristo é o meio por qual todas as coisas se tornam claras e por meio dele a nossa ação no mundo deve ser realizada, não fuja da realidade, mas aproveite cada dia que o Senhor te der para servir a Ele plenamente.

 

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